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Olhos de lua, de dia frio...
olhos de dia que faz um solzinho maroto,
tão maroto quanto a forma com que me apresento,
como demonstro meus interesses, assim, como quem não quer nada.
Um solzinho que tenta esquentar a fria noite que faz não me importar.
Um solzinho que, depois de tudo, mostra que no frio é que se cuida,
no frio se sujeita, se abdica e se esquenta...
porém, com vestes de realidade, para que nada de errôneo ocorra.

Olhos de vida
No banco de trás, teus olhos me iluminavam. E fascinavam, embora não tenha tido coragem de vê-los com atenção. Olhos claros, acendiam os meus de vez em quando, mas era fato que eu teria que especular o que eles viam, com detalhes. Algum dia, a minha esperança fazia-me crer que pudesse analisá-los com calma. Mesmo que com meus lábios, com meu pulsante coração ardia para senti-los ali, o acariciando com belas e encantadoras frases que não mais se acabavam. Eram tantas, que meus ouvidos se surpreendiam cada vez mais.
De férteis, os olhos, eles puderam generosamente mostrar aquele céu azul encantador, naquela hora da noite, e abreviavam também o que não faziam muito sentido.
De ombros armados, de vestes singelas, de ousadia de cor nos dedos, de encanto em franzir a testa, ou abaixar suavemente a sobrancelha direita quando algo a chamara a atenção.

E finalmente desvendei uma minúscula parte de seus mistérios. Tais mistérios comuns, coisas como ver seus olhos de forma mais profunda, quase por dentro. Era tempo de entreter-me por trás das lentes de seus óculos, aqueles pouco segundos de exposição explícita, no meio da noite, no foco de vizinhos, e de olhos curiosos, a procura de algo que não sabem ao certo de que se trata.

Mas, o que interessa é que, pude deitar-me e fazer curar minha dor de cabeça por adormecer profundamente, com um pequeno, mas constante sorriso no canto dos lábios, meio que não acreditando no que acontecera, e que é possível acontecer aquilo que mais desejava, por fazer levar os sentimentos com as mais puras e sinceras das intenções.



Creck postou às 23h55
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Quando o belo atinge nossas pestanas,
por elas mesmas se abdicarem,
do mundo, da poesia,
da vida,
Entramos num colapso enriquecedor
para que de todas as belezas do mundo
não evitem meu descaso a elas.
E assim, manter-me inconsciente
para amar-te mais profundamente.

Terra Fértil
Entrei na realidade novamente. Quando sonhava com o solo fértil, lembrei-me que as plantas não nascem naquela seca insuportável. Levei dela um balde de areia fria, para colocar-me em meu lugar. Embora tenha muito orgulho de suas atitudes, tive uma breve recordação de todas as sementes que eu plantara, sem êxito em vê-las crescendo... cresciam e morriam, não se importando com minha teimosia em vê-las sorrindo para o sol a cada dia.

Toda vez que acordava, torcia e pedia a Deus para que eu me surpreendesse com uma pequena muda que fosse. Mas nada. Desperdiçara tempo, créditos e esperança em busca de um satisfatório plantio.
Olho para cima, um sol de arrepiar. Seco com um lenço velho algumas gotas de suor em meu rosto, já calculando meus próximos afazeres. Largo a enxada em um canto da vida e ponho-me a fazer minha refeição do dia. Na verdade, é a única tarefa que me vem a assombrar. A fome é tanta, que desisto de pensar em trabalho. Apenas por enquanto, porque o sol clama a minha presença para extrair todo meu liquido, assim como um vampiro encomprida os olhos a encontrar uma moça nova e inocente. O sol espera. E eu me alimento.

A caminho da cozinha, tudo que se inova naquele momento é o som de minhas botas no assoalho velho de madeira. Velho, mas brilhando, sinal de capricho de minha senhora. Tábuas largas e algumas frestas lembram-me o ciclo do amor. Algumas tão próximas, quase a encavalar-se, provando a toda a comunidade que foram feitas uma para a outra, num romance interminável. Enquanto parte do assoalho se beija, do outro lado, bem próximo à parede, uma fresta considerável. Tantos anos uma ao lado da outra, porém não parecerem ter boa convivência.
Árdua convivência que não vejo na bela mulher que meus olhos percebem ao invadirem a cozinha. De costas, a bolir na pia, mostra obviedade em ter me ouvido, logo quando entrei no corredor. Percebendo fortalecer o som daqueles passos, olha-me com um sorriso, como quem já esperava minha presença rotineira. Como de costume, e seguindo a teoria de nossas criações, demonstra interesse em saber meu humor.
- Como foi sua manhã?
- Eu compreendo.
- Mas nem uma mudinha sequer?
- Eu respeito.
- Que pena... mas amanhã é um novo dia, e tudo há de melhorar.
- Eu tolero.
Sigo em sua direção e tradicionalmente sinto seus lábios fervendo, doce como um pêssego para exportação.
- Hoje o Sentido veio até aqui. Veio procurar por você, mas você estava cuidando da plantação. Parece que ele tinha algo muito importante pra lhe dizer.
- Eu compreendo.
- Pois é, eu também acho. Aliás, percebi que ele estava meio abatido, talvez seja a Perfeição, você não acha?
- Eu respeito.
- É, deve ser difícil conviver com alguém tão exigente mesmo. Talvez seja a situação que eles estão passando, isso abala qualquer pessoa.
- Eu tolero.
Sento-me à mesa e começo a me servir daquela suculenta comida feita na hora. Ela vem logo após, para fazer-me companhia na refeição.
Logo na primeira garfada noto algo deferente, me parece mais encorpado o tempero, mais saboroso o arroz e mais colorida a salada. Irresistivelmente, a vontade de fazer um elogio me foge pelos dentes, e demonstro minha satisfação.
Docilmente recebo em troca um olhar profundo, com um brilho nos olhos e mais um sorriso irresistível. Lembro-me dos primeiros anos de namoro, quando seus olhos raramente brilhavam e nenhuma informação de idéia ou intenção chegava a meu conhecimento. Naquela época tínhamos uma roseira num canteiro da casa, onde minha mãe regava diariamente. Sempre havia uma rosa a esperar por carinho das pessoas que ali passavam, e o meu amor dava um beijinho nela todas as tardes. Não tinha perigo da rosa não ganhar um afeto, apenas quando ela desaparecia por algum tempo. A roseira era o espelho de sua beleza; quando murchava, podia ter certeza que ela estava em busca de liberdade.
Para interferir o silêncio que ali vigorava, resolvi fazer uma pergunta bem profunda:
- Eu compreendo?
Pensativa, ela olha bem em meus olhos e responde com convicção:
- Obrigada por esperar.
Me aprofundando um pouco mais:
- Eu respeito?
Agora já mais emocionada dispara:
- Se não fosse nosso amor, nada seria possível.
Querendo finalizar, coloco meu último elogio:
- Eu tolero?
Abrindo um sorriso do tamanho do sol que me ardera há pouco lá fora, ela se identifica com minha perseverança:
- Eu entendo tudo que você me fala, de um jeito ou de outro, nem que hoje, nem que amanhã.
Mastigando a última esperança de arroz do prato, involuntariamente explodo de carinho:
- Eu te amo.



Creck postou às 21h31
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